Transplante de fígado: quando é indicado e como é a avaliação

Esse texto tem caráter apenas informativo. Mantenha acompanhamento com seu hepatologista!

O que é o transplante hepático?

O transplante hepático é uma opção de tratamento para pacientes com doenças graves do fígado. Nesses casos, quando o tratamento clínico não é mais suficiente, o transplante pode ser a melhor alternativa para oferecer maior expectativa e qualidade de vida.

O procedimento consiste na retirada do fígado doente e na substituição por um fígado saudável. Esse órgão pode vir de um doador falecido, geralmente em situação de morte encefálica, ou de um doador vivo, quando é transplantada apenas uma parte do fígado saudável — modalidade conhecida como transplante intervivos.

Quem tem indicação de transplante de fígado?

Alguns das indicações de transplante são:

  • Cirrose hepática descompensada: indicação mais comum;

  • Alguns tumores que acometem o fígado como alguns casos de  carcinoma hepatocelular (CHC) e tumor neuroendócrino metastático para o fígado;

  • Adenomatose múltipla;

  • Colangites de repetição;

  • Prurido de origem hepática incapacitante.

A cirrose e a indicação de transplante

Tenho cirrose, então preciso fazer um transplante de fígado?

Não! Não necessariamente!  A cirrose hepática é a principal indicações de transplante de hepático do mundo, mas nem toda pessoa com cirrose precisa de transplante.

A cirrose é uma doença crônica que tem diferentes fases. Em muitos casos, o paciente está em uma fase chamada cirrose compensada, quando ainda não apresenta complicações importantes e muitas vezes é assintomático.  Nessa, quando se mantem boa qualidade de vida e boa sobrevida, não há indicação de transplante.

Em alguns pacientes, porém, a cirrose pode evoluir para a fase descompensada, quando surgem complicações como ascite, encefalopatia, sangramentos digestivos por hipertensão portal e icterícia. Quando essas descompensações acontecem, especialmente quando são recorrentes ou difíceis de controlar com medicamentos, a sobrevida diminui e o transplante hepático passa a ser considerado como uma boa opção de tratamento.

Para avaliar a necessidade de transplante, além de fazer uma avaliação clínica global, utilizamos algumas escalas que nos ajudam a entender em qual “fase” o paciente está.  As mais comuns são a de Child-Pugh e o MELD/MELD-Na. Quanto maior a pontuação nessas escalas, maior é o impacto da cirrose na sobrevida e maior a necessidade de avaliação especializada para transplante.

Como o é avaliado na prática a indicação de transplante e como é a organização da lista de transplante?

"O que é famoso MELD que meu médico tanto fala?"

O MELD-Na é a escala utilizada para definir a prioridade na lista de transplante de fígado no Brasil. O cálculo do MELD-Na é feito a partir de exames de sangue e leva em consideração quatro parâmetros: creatinina, bilirrubina, INR e sódio. 

De forma geral, quanto maior a pontuação do MELD-Na, maior é a gravidade da doença e menor a ser a sobrevida estimada nos próximos meses sem o transplante. Por isso, pacientes com pontuações mais altas tem maior prioridade na lista, sempre respeitando os critérios de compatibilidade e as regras do sistema de transplantes.

"O que são situações de pontuação especial?"

Existem situações em que o paciente apresenta uma doença grave do fígado, mas o MELD-Na pode permanecer relativamente baixo, porque nem sempre essas condições causam grandes alterações nos exames de sangue usados no cálculo. Um exemplo importante são casos selecionados de câncer de fígado. O paciente pode ter uma doença com risco significativo de progressão, mas ainda apresentar creatinina, bilirrubina, INR e sódio pouco alterados. Nesses casos, o MELD-Na calculado pode não refletir adequadamente a gravidade real da situação.

Por esse motivo, existem no Brasil as chamadas situações de pontuação especial. Nelas, após análise cuidadosa da documentação clínica, dos exames e dos critérios estabelecidos pelas normas do sistema de transplantes, o paciente pode receber uma pontuação ajustada na lista.

Essa avaliação é feita de forma criteriosa por instâncias técnicas responsáveis, com o objetivo de garantir segurança, justiça e adequada priorização dos pacientes que aguardam transplante hepático.

O que é transplante intervivo e o que é transplante de doador falecido?

No Brasil, existem duas principais formas de transplante de fígado: o transplante com doador falecido e o transplante intervivos.

Transplante com doador falecido

O fígado vem de uma pessoa que teve morte encefálica e cuja família autorizou, de forma generosa, a doação dos órgãos. Quando há um órgão disponível, é avaliado qual paciente da lista de transplante é compatível com aquele doador. Essa compatibilidade leva em conta diversos fatores como grupo sanguíneo e tamanho do órgão.  É importante saber que a lista de espera para transplante de fígado não funciona por ordem de chegada. Ou seja, não recebe primeiro quem entrou antes na lista. A prioridade é definida principalmente pela gravidade da doença hepática.

Transplante intervivo

Ocorre quando uma pessoa saudável, geralmente um familiar próximo, doa parte do seu fígado para um paciente que precisa do transplante. Essa possibilidade existe porque o fígado saudável tem uma importante capacidade de regeneração. Após a cirurgia, a parte do fígado que permanece no doador tende a crescer progressivamente, recuperando volume e mantendo sua função adequada.

Antes da doação, o possível doador passa por uma avaliação minuciosa, que inclui análise da saúde geral, da função hepática e da anatomia do fígado. Também são realizados exames de imagem para estimar o volume hepático e calcular se a parte do fígado que ficará no doador será suficiente para garantir sua segurança, ao mesmo tempo em que a parte doada será adequada para o receptor.

Uma diferença importante em relação ao transplante com doador falecido é que, no transplante intervivos, não há necessidade de aguardar a disponibilidade de um órgão na lista de transplante. Trata-se de uma cirurgia planejada, realizada com data programada.

Qual tipo de transplante hepático é melhor?

Cada modalidade de transplante tem seus benefícios, limitações e riscos. Por isso, a decisão deve ser sempre individualizada, considerando a condição clínica do paciente, a possibilidade de doação, os critérios de segurança e a avaliação da equipe transplantadora. Essa avaliação deve ser feita por uma equipe específica de transplante, que inclui tanto hepatologistas quanto cirurgiões transplantadores.

Como é a qualidade de vida após um transplante hepático?

A maioria dos pacientes tem boa evolução após o transplante, conseguindo retornar parcial ou totalmente para suas atividades diárias, retornando para o trabalho, para a sua vida social e familiar.

No entanto, é importante entender que o transplante não representa o fim do acompanhamento médico. Após a cirurgia, o paciente precisa manter seguimento regular com a equipe transplantadora e com o hepatologista e usar corretamente os medicamentos imunossupressores, que ajudam a evitar a rejeição do novo fígado.

Mantendo esses cuidados, os resultados tendem a ser positivos!  O sucesso a longo prazo depende de acompanhamento adequado, adesão ao tratamento e hábitos de vida saudáveis.

Tem dúvidas sobre transplante hepático? Uma avaliação especializada pode ajudar a entender o seu caso e orientar os próximos passos.​